A Bíblia Sagrada e a Mundaka Upanishad: reflexões sobre o Eterno

Todas as escrituras sagradas do mundo têm muito o que ensinar para nós, independente da crença ou não-crença do mito. Há sempre algo para aprender, desde que estejamos abertos ao aprendizado e não sufocados por nossas “certezas”. O reconhecimento do não-saber é o fundamento do conhecimento e sabedoria. Será tratado aqui sobre a Mundaka Upanishad,  um famoso texto espiritual indiano, escrito vários séculos antes da era cristã.

Quando focamos na diferença não estamos abertos para o diálogo inter-religioso. No lugar da diferença, que o foco seja a similaridade e o diálogo. A Bíblia Sagrada e as Upanishads têm muito o que dialogar. E esse diálogo é rico e torna a espiritualidade  um caminho de descobertas e profundidade. O diálogo a seguir é sobre um texto da Mundaka Upanishad e a Bíblia Sagrada.

DEUS É BRAHMAN

Hoje tenho me deparado muito com o problema da linguagem. A linguagem limita o saber e principalmente se tratando do Transcendente. Nomeamos aquele que é inominável. “Deus não é monopólio de qualquer tradição humana mesmo daquelas que a si mesmas se intitulam de teístas ou das que se consideram religiões. Todo e qualquer discurso que tenta tornar Deus prisioneiro de uma ideologia seja ela qual for é um discurso sectário” (RAIMON PANNIKAR). Quando afirmo que Deus é Brahman é porque “Brahman” é apenas outro nome do qual o Ocidente não é está familiarizado. Yahweh, Deus, Yeshua, Jesus, Brahman, Atman… nomes. Nomes do mesmo princípio eterno do Universo.

Criador e sustentador

A tradição cristã acredita na criação ex-nihilo, ou seja, que Deus criou tudo a partir do nada, da própria existência. Salmo 104 pode ser considerado como a melhor exposição da Bíblia sobre a fé na criação. Essa doxologia começa com a obra divina de ordenar a criação e testemunha sobre os ritmos confiáveis e sustentadores da vida que são garantidos por Deus. A segunda parte do Salmo 104 reflete sobre a importância de Javé na criação: A) Deus é o firme governador de toda a criação (vs.24-26); B) Deus é o provedor da criação (vs. 27-28), dá o sopro de vida – rûah (vs. 29-30); C) A visão do poder e da bondade de Deus produz uma explosão de louvores (vs. 31-34); D)Finaliza com uma questão ética para os pecadores e perversos que negam o Criador (vs.35).

Na Mundaka Upanishad temos essa mesma visão sobre quem Deus é: “Dotado de luz própria é esse Ser, e não possui forma. Ele habita dentro de tudo e fora de tudo. Ele nunca nasceu, é puro, maior do que o maior, não possui alento, não possui mente. Dele nascem o sopro vital, a mente, os órgãos dos sentidos, o éter, o ar, o fogo, a água e a terra, e ele mantém tudo isso unido. O céu é a sua cabeça, o Sol e a Lua os seus olhos, as quatro fases os seus ouvidos, as escrituras reveladas a sua voz, o ar o seu fôlego, o Universo o seu coração. Dos seus pés veio a Terra. Ele é o mais profundo Eu de todos. Dele surge o céu iluminado pelo Sol, do céu a chuva, da chuva o aumento, e do alimento a semente que o homem dá à mulher. Assim, todas as criaturas descendem dele.”

O Eterno é Real

As Upanishads, assim como na Bíblia, descrevem muito as características do Eterno. Nas Upanishads a única coisa Real é Deus, Brahman. A luz, o refúgio, a Palavra. E para a filosofia védica a única coisa que é real é a que existe nos três tempos, no passado, no presente e no futuro. O que não tem início e nem fim. Nesse trecho pode-se notar as qualidades e o objetivo da vida: alcançar o Senhor:

“Dotado de luz própria é Brahman, sempre presente nos corações de todos. Ele é o refúgio de todos, é a meta suprema. Nele existe tudo o que se move e respira. Nele existe tudo o que é. Ele é ao mesmo tempo aquilo que é grosseiro e tudo aquilo que é sutil. Ele é adorável. Ele está além do alcance dos sentidos. Ele é supremo. Atingi-o! Ele, o dotado de luz própria, mais sutil do que o mais sutil, em quem existem todos os mundos e todos os que neles habitam esse é o imperecível Brahman. Ele é o princípio da vida. Ele é a palavra, e ele é a mente. Ele é real. Ele é imortal. Atingi-o, Ó meu amigo, a única meta a ser atingida!”

Na Bíblia Sagrada encontramos diversos versículos que testificam as Upanishads. No evangelho de João é relatado que Jesus diz: “Eu sou a luz do mundo. Quem me segue, nunca andará em trevas, mas terá a luz da vida” (João 8:12). Ainda em João é declarado que “No princípio era aquele que é a Palavra. Ele estava com Deus, e era Deus. Ela estava com Deus no princípio. Todas as coisas foram feitas por intermédio dele; sem ele, nada do que existe teria sido feito.”( João 1:1-3). Jesus é o Verbo, OM, a Palavra que se fez carne (João 1:14). Em Apocalipse (22:13) Jesus declara ser “o Alfa e o Ômega, o Primeiro e o Último, o Princípio e o Fim.”  Em Atos, Paulo utiliza um trecho de um poema grego para anunciar o Cristo Ressurreto e diz: ‘Pois nele vivemos, nos movemos e existimos’ (Atos 17:28).

No Antigo Testamento os salmistas também proclamavam esse Deus, único e real. Ficaria aqui eternamente citando versículos de Salmos que falam sobre essa meta suprema, sobre esse Maravilhoso. Mas citarei apenas dois versículos que expressam essas características do Senhor: “Pois em ti está a fonte da vida; graças à tua luz, vemos a luz.” (Salmos 36:9) e  “Deus é o nosso refúgio e a nossa fortaleza, auxílio sempre presente na adversidade”(Salmos 46:1).

O Inalcançável por meios humanos

Na Bíblia fica evidente que a sabedoria humana nunca poderá alcançar Deus. E a teologia testifica isso:  não conhecemos a Deus, conhecemos apenas o que Ele nos revelou sobre si. Tentar definir Deus, fazer imagens (mesmo mentais) sobre ele, colocá-lo em uma caixa é subestimar quem Ele é. O texto que, nesses últimos três anos de estudos teológicos, mais me conforta é: “As coisas encobertas pertencem ao Senhor, ao nosso Deus, mas as reveladas pertencem a nós e aos nossos filhos para sempre” (Dt 29:29). Como tentar entender Deus e não conseguimos nem nos compreender totalmente? Se suas criaturas são complexas, imagine o Criador.

Paulo na carta ao povo de Éfeso escreve que orava para que eles pudessem conhecer a “o amor de Cristo que excede todo conhecimento” (Ef 3:19). O salmista fala que o amor de Deus é melhor do que a vida (Sl 63:3). Que amor é esse? Como é possível experimentá-lo? Jesus diz que nos deixou a paz, não como o mundo dá (Jo 14:27), uma paz que excede o entendimento (Fp 4:7). O que significa essa paz?

Brother Martin, monge beneditino camaldolense, diz que há estágios do conhecimento de Deus: Através da poesias e textos sagrados; dos rituais ; da recusa de mediadores e se identificando com a Verdade. Quando há a identificação com a verdade apenas com o silêncio é possível desfrutar da relação com Deus. É a compreensão da qual Paulo experimentou: “Não mais eu vivo, mas Cristo vive em mim” (Gl 2:20). Não há dualidade nessa experiência. É sermos Um com Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito, assim como Cristo orou (João 17:20). Brother Martin ilustra isso de uma maneira muito simples: A água e o gelo. A única coisa que se difere ainda é o estado, mas no fundo são a mesma coisa. É quando Cristo é “tudo e está em todos” (Cl 3:11) e assim somos Um com a Suprema Realidade, Deus, Brahman.

E não é por meio de sacrifícios e rituais que isso acontece, não é por meio de conhecimento e intelectualidade que essa comunhão ocorre, é por meio da Sua Graça, seja na Bíblia ou nas Upanishads.

A Upanishad Mundaka é bem claro à esse respeito:

“Finitos e transitórios são os frutos dos rituais de sacrifício. Os iludidos, que os encaram como os mais elevados bens, permanecem sujeitos ao nascimento e à morte. Vivendo no abismo da ignorância, porém sábios em seu próprio conceito, os iludidos dão voltas e voltas, como cegos levados por cegos. Vivendo no abismo da ignorância, embora sábios em seu próprio conceito, os iludidos se crêem abençoados. Apegados a palavras, não conhecem Deus. As ações levam-nos apenas ao céu, onde, para sua tristeza, suas recompensas rapidamente se esgotam, e são lançados de volta à Terra”

“Os olhos não o vêem, a palavra não pode pronunciá-lo, os sentidos não podem alcançá-lo. Ele não é alcançado nem por austeridades nem por rituais de sacrifício. Quando o coração se torna puro através da discriminação, então, na meditação, o Eu Impessoal é revelado.”

“O Eu não é conhecido através do estudo das escrituras, nem através das sutilezas do intelecto, nem através de muito aprendizado. Porém é conhecido por aquele que anseia por ele. A esse verdadeiramente, o Eu revela seu verdadeiro ser.”

Assim também é na tradição cristã. O livro de Provérbios não cansa de alertar seus leitores sobre não ser “sábio aos seus próprios olhos” (Pv 3:7).  O  “Deus único, imortal e invisível” (I Tm 1:17) que Paulo apresenta à Timóteo é o mesmo que falou através do profeta Oséias: “Pois desejo misericórdia, não sacrifícios, e conhecimento de Deus em vez de holocaustos.” (Os 6:6). As pessoas que correm atrás do conhecimento e sacrifício humano para se achegar a Deus são cegos, e assim guiam outros cegos, e são os mesmos que foram repreendidos por Jesus no evangelho de Mateus (Mt 15). Jesus também repreendeu os fariseus que buscavam apenas as palavras e não o verdadeiro conhecimento de Deus:

“Vocês estudam cuidadosamente as Escrituras, porque pensam que nelas vocês têm a vida eterna. E são as Escrituras que testemunham a meu respeito;contudo, vocês não querem vir a mim para terem vida.”
João 5:39,40

O padre Bede Griffiths disse uma vez: “Podemos aprender todos os Vedas, sem discernir sua essência, ou estudar toda a Bíblia do começo ao fim, sem conhecer o Verbo de Deus. Só a iluminação do espírito nos possibilita chegar ao verdadeiro conhecimento.”

A revelação de Deus aos homens é uma premissa tanto bíblica quanto védica. Deus se revela aos que o buscam: “Vocês me procurarão e me acharão quando me procurarem de todo o coração” (Jr 29:13). E adoração a ser feita não é restrita a templos ou  a uma religião específica, é antes uma adoração em espírito e em verdade, como Cristo nos ensinou no diálogo com a mulher samaritana (Jo 4:24).

“Que o homem dedicado à vida espiritual examine cuidadosamente a natureza efêmera de tal prazer, seja aqui ou no além, como pode ser obtido através de boas ações, e perceba assim que não é pelas ações que se ganha o Eterno.” Mundaka

“E conhecereis a verdade, e a verdade os libertará”

Quando há o conhecimento de Deus, no sentido mais profundo da alma humana, há uma libertação. Tanto na tradição cristã quanto na indiana Deus é o único capaz de libertar a alma humana da condição que ela está. Em sânscrito há uma palavra específica que representa essa libertação: moksha. O conceito de moksha é se ver livre do samsara (ciclo da vida) e alcançar de fato essa libertação, o nirvana. E é apenas pela devoção que a moksha é alcançada.

O apóstolo Paulo deixa o chamado da liberdade bem claro na carta à Galácia: “Foi para a liberdade que Cristo nos libertou”(Gl 5:1); “Irmãos, vocês foram chamados para a liberdade” (Gl 5:13).  E essa liberdade é se ver livre do pecado, que é o apego das coisas desse mundo, ao prazer sem sentido, cobiça, desejo e tudo que provém da carne. Temos esse mesmo conceito no Mundaka, que fala sobre sermos livres dessas paixões:

“Após conhecerem o Eu, os sábios se enchem de felicidade. Tornam-se abençoados, tranqüilos na mente e livres de paixões. Percebendo em todos os lugares o Brahman que tudo permeia, profundamente absortos na contemplação do seu ser, penetram nele, o Eu de todos.”

E penas quem alcança essa liberdade, da qual o Sagrado nos chama, consegue viver uma vida plena em si mesmo, realizado em Deus.  Ser sábio é se deleitar nas coisas do Senhor (Sl 1:2), é encontrar nele tudo o que é preciso, é encontrar “a graça que basta”( 2 Co 12:9). É contemplar e ser a luz que é a Santidade.

“O Senhor é a única vida que brilha em cada criatura. Ao vê-lo presente em tudo, o homem sábio é humilde, não se coloca à frente de nada. Seu deleite está no Eu, sua alegria está no Eu, ele serve ao Senhor em tudo. Como ele, de fato, são os verdadeiros conhecedores de Brahman.” Mundaka

Om shanti

Termino com um questionamento proposto por Paulo na carta aos Romanos:

“Deus é Deus apenas dos judeus? Ele não é também o Deus dos gentios? Sim, dos gentios também, visto que existe um só Deus, que pela fé justificará os circuncisos e os incircuncisos.” Romanos 3:29,30

Quem são os judeus de nosso tempo? Quem são os gentios dessa era atual? Que possamos refletir sobre as Escrituras Sagradas, seja de que credo for, de uma maneira contextualizada e respeitando a sua época.

OM…
Com nossos ouvidos, ouçamos o que é bom.
Com nossos olhos, contemplemos vossa integridade.
Tranqüilos no corpo, possamos nós, que vos veneramos,
encontrar descanso.
OM… Paz – paz – paz.

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2 pensamentos sobre “A Bíblia Sagrada e a Mundaka Upanishad: reflexões sobre o Eterno

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