“E o OM se fez carne…”

 

“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.”
João 1:1

Há um consenso geral que o evangelho de João é um dos  livros mais importantes e belos já escritos. O ponto de partida para o evangelho é Jesus. Em seu prólogo, João refere-se a Jesus 14 vezes como “o Verbo”, “a Palavra”. O teólogo Bultmann argumenta que o Prólogo começa com uma referência a Gn 1, desta forma, o “disse Deus” (Sua Palavra) de Gn 1, que demonstra o agir poderoso de Deus, tem relação com o Logos: “Todas as coisas foram feitas por intermédio dele; sem ele, nada do que existe teria sido feito.” (Jo 1:3)

O evangelho de João bebe da filosofia heraclítica para o conceito de Logos. ” O Logos é aquilo que explica a continuidade no meio de todo o fluxo que é visível no universo. Logos, de acordo com Heráclito, é o ‘princípio’ eterno da ordem no universo que faz do mundo um cosmos.” (SADANANDA, 2004:164). Ele preexiste a todos os seres, sendo a fonte de toda a realidade. A Palavra, o Verbo, é divino. E isso não ocorre só na religião cristã.

 Se o apóstolo João tivesse vivido na Índia ele começaria o evangelho assim: “No princípio era aquele que é OM. OM estava com Deus,  OM  era Deus”. Na tradição hindu OM é o som sagrado que dá sentido e traz a existência todas as coisas.  Na Taittiriya Upanishad encontramos um verso que diz: “OM é Brahman. OM é tudo. Aquele que medita sobre OM atinge Brahman”[ Como já foi dito em um texto anterior: Brahman é Deus. Apenas com outra linguagem cultural ].

O Padre Henri Le Saux, conhecido como Swami Abhishiktananda, um dos fundadores do Saccidananda Ashram Shantivanam (o mosteiro do qual o Padre Bede Griffiths fazia parte) e um dos pioneiros no diálogo inter-religioso entre hinduísmo e cristianismo, enxerga que a expressão OM é muito mais abrangente que muitas orações comuns. Em um de seus textos ele diz:

“OM o mistério do Espírito. Mas em última análise, não há nenhum nome para o Pai, porque o Pai nunca pode ser conhecido em si mesmo. Ele é conhecido apenas através de sua auto-manifestação no Filho e no Espírito Santo. O Pai é a última ou quarta parte do OM, que é puro silêncio.”

No Bhavagad-Gita, quando Krishna se revela ao guerreiro Arjuna, é dito: “Eu sou OM a palavra sagrada dos Vedas, o som do silêncio” (BG 7:8). “Das palavras Eu sou OM, o Verbo da Eternidade.” (BG 10:25).  E o Padre Bede Griffiths comenta esse último versículo dizendo:

“OM é a sílaba sagrada, o pravana, que significa realidade suprema. Ele representa a vibração da energia que deu origem a todo o universo. Há o anahata shabda, o som nunca ouvido, do qual surge o som que se ouve. OM é o som através do qual passamos ao som que não pode ser ouvido, a palavra falada que conduz ao Verbo, do qual se originam todas as palavras.” (GRIFFITHS, p.264)

O OM não é apenas um símbolo de Deus, ele é DEUS. “Aquele que é  OM tornou-se carne e viveu entre nós” (Jo 1:14). Jesus a imagem do Deus invisível, o Alfa o Ômega, o Princípio e o Fim. É o Logos como criador da vida, e como mantenedor dela. Logos como é a fonte permanente de vida. Esse é o Cristo. “Vós sois Brahman, uno com a sílaba OM, que está em todas as escrituras – a sílaba suprema, a mãe de todos os sons. Fortalecei-me com a verdadeira sabedoria. […] A sílaba OM é verdadeiramente a vossa imagem. Através dessa sílaba podeis ser alcançado. Vós estais além das garras do intelecto. Permiti que eu não esqueça o que aprendi nas escrituras”  Taittiriya Upanishad

OM é o que nos transforma, elevando a nossa consciência para o Reino de Deus, para,  assim, estabelecermos aqui e agora. OM é a invocação do nome de Deus e a experimentação da paz que excede todo o entendimento.

Que essa seja nossa oração:

“Possa eu, Ó Senhor, perceber o Imortal. Que o meu corpo seja forte e perfeito; que a minha língua seja doce; que os meus ouvidos ouçam somente louvores a vós.” Taittiriya Upanishad

cosmic cross

Cruz Cósmica.

“A Cruz Cósmica carrega a inscrição Saccidananda Namah e OM ao centro da cruz. Isto significa que nós tentamos viver nossa Vida Beneditina no contexto da espiritualidade Indiana, que está no reconhecimento da Presença Divina em todo cosmos e no centro de nosso ser.”

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