Bhakti Yoga na Bíblia e no Bhagavad-Gita

A palavra Bhakti tem muitos significados. De acordo com Vallabhacharya, bhakti é composto pela raiz bhaj-, e sufixo kti. A raiz bhaj – significa “serviço”, e o sufixo ktisignifica “amor”. Para Sankara, bhakti tem valor instrumento É o instrumento do conhecimento (jnana). Mas para Ramanuja, bhakti é o cultivo do conhecimento (jnana) e ação (carma) e o caminho para alcançar moksha.

Bhakti-Yoga  é basicamente a atitude de se tornar um com o Divino. É a experiência de compartilhar a vida divina. Aqueles que praticam a bhakti-yoga são chamados debhakta.  A raiz da palavra bhakta é a mesma da palavra bhakti, bhaj. “Originalmente, parecia significar “compartilhar”, “participar de”, e então, “participar através do afeto”; assim, possuía vários significados, mas, à época do Gita, ele chegou a significar “amor e lealdade” (GRIFFITHS, 2011, p.99).

Dhavamony, um conhecido pesquisador da Índia, conceitua bhakti da seguinte maneira:

“Bhakti é proposto tanto como um meio de libertação quanto o objetivo supremo da própria libertação. Bhakti, como um meio de libertação, denota o amor de Deus demonstrado pelo devoto com o objetivo de alcançar a liberação final; Bhakti, como o estado da já liberação, significa a união e redenção a Deus. É a participação sentida pela alma na total presença de Deus”(1982, 44).

Bhakti Yoga no Bhagavad-Gita

O Bhagavad-Gita, ou Canção do Senhor, é uma clássica obra sagrada de grande importância para as tradições hindus.  Esse texto é parte de um poema épico chamado Mahabharata, que normalmente é datado entre o quarto século a.C. e o quarto século d.C. É provável que o Bhagavad-Gita tenha sido escrito no terceiro século a.C. O Bhagavad-Gita, segundo Bede Griffiths, representa o “resumo da doutrina hindu”.  E é “considerada, sem nenhuma dúvida, pelos indianos, a base fundamental do Hinduísmo, qualquer que seja sua sampradaya ou sucessão discipular”

A palavra bhakti ocorre perto de 42 vezes no texto sagrado. É a experiência de compartilhar a vida divina. No Bhagavad-Gita isso significa se render totalmente em devoção e lealdade a Krishna, o Deus pessoal, confiar nele e amá-lo.

Nos escritos sagrados Upanishads o entendimento para alcançar a sabedoria suprema (jnana) era preciso se retirar para meditar na floresta. Ou seja, somente um monge renunciante (sannayasi) conseguiria alcançar a verdadeira libertação (moksha). Assim, a religião pregada nos Upanishads era algo para poucos e muito difícil de ser alcançada.

O Bhagavad-Gita muda essa percepção, todos podem alcançar a libertação (moksha) através da devoção (bhakti). Mesmo os que vivem uma vida comum podem alcançar essa verdadeira sabedoria e união suprema. É muito comum a comparação daBhagavad-Gita, em termos de época e importância, com o Novo Testamento ou mesmo com a Bíblia.

Bede Griffiths  explica essa comparação: “É por isso que o Gita se tornou um manual para o hindu, um tipo de Novo Testamento, porque é um ensinamento para o chefe de família, o homem que vive sua vida comum no mundo, casado e com filhos”. E é por meio da devoção pessoal a Krishna que os seres humanos alcançariam esse estado de libertação, não apenas através da ação, sacrifícios, mas pela devoção.  Shankara, grande doutor do Vedanta do século VIII, disse que não é possível alcançar a mokshapor meio de carma (ação), ele estava afirmando que o ritual não era o suficiente para isso.

A visão do Bhagavad-Gita é de que “pela ação, pelo serviço, ao cumprir com o próprio dever como chefe de família, é possível alcançar Deus. Porém, ao lado do carma, o indivíduo deve ser bhakti, a ação deve fluir a partir da devoção ao Deus pessoal” (GRIFFITHS, 2011, p.19)

O amor e devoção (bhakti) é voltado para a pessoa de Krishna, a suprema personalidade de Deus. A meditação em Krishna é o exercício espiritual do amor (BG 12:6) e é o caminho mais fácil para o bhakta alcançar moksha.  A seguir alguns versos do Bhagavad-Gita que expressam essa ideia:

  • BG 8:14 Esse iogue facilmente chega a Mim, ó Partha, por estar sempre unido a Mim, constantemente pensando em Mim com toda sua mente
  • BG 8:22 Este ser supremo, ó Partha, pode ser alcançado por uma devoção integral; Nele habitam todos os seres, tudo está compenetrado por Ele.
  • BG 9:13 Mas as grandes almas que participam da natureza divina, ó Partha, conhecem-me como a Fonte Imperecível de todos os seres e Me rendem culto com uma mente totalmente a Mim dedicada
  • BG 9:30 Mesmo o maior dos pecadores, se se voltar para Mim com uma devoção total, deve ser considerado como um santo, por que ele tomou uma firme resolução.

O objeto de devoção (bhakti) no Bhagavad-Gita é a pessoa de Krishna. E a meta suprema dos bhaktas é tornar-se uno com Krishna, atingir a moksha. Krishna se revela no Bhagavad-Gita como o não-nascido e imutável, que não tem começo e nem fim (BG 4:5), tudo emana dele e ele é o criador de todas as coisas (BG 4:7), tem muitos nascimentos (BG 4:5), e assume a forma humana (BG 9:11). O Bhagavad-Gita deixa claro que ele é tudo e todos os deuses são manifestações dele. Entretanto, quem quiser alcançar plenamente a moksha deve adorar somente a Krishna.

No Bhagavad-Gita, é notável que o avatar de Krishna é o Senhor Pessoal do que auxilia toda a humanidade, seja qual for o gênero e a casta, para buscar e encontrar o Todo-Poderoso através do seu amor e graça. E ele é uma pessoa real, não apenas uma aparição. E não é apenas nesse processo de discernimento do caminho que o avatar auxilia, mas sim em alcançar a tão esperada moksha, a libertação que é a união em Brahman.

Bhakti Yoga na Bíblia

Nas Bíblia é possível notar a evolução da revelação de Deus. Brother Martin, diretor espiritual do ashram Shantivanam, encontra quatro estágios do relacionamento com Deus:

  1. Relacionamento através da Poesia – É a experiência de Deus na natureza, a maravilha da criação e comunicação com Deus através de poemas, hinos e cânticos. Os Vedas e a Bíblia estão repletos desses poemas. Esse estágio é chamado de Samhitas.
  2. Relacionamento através dos Rituais – O segundo estágio é através dos rituais e sacrifícios. É possível encontrar diversos sacrifícios nos Vedas e na Bíblia. Esse estágio é chamado de Brahmanas.
  3. Renúncia de todas as mediações – Progressivamente a humanidade descobriu que esse relacionamento através de rituais e palavras não era possível ser realizado plenamente.  Essas mediações são como os chifres de um touro, os chifres fazem parte do touro, mas estão separados do touro. E então, esse é o terceiro estágio, onde a humanidade renuncia os hinos e sacrifícios para se “adentrar na floresta” e meditar. Esse é um estágio revolucionário no relacionamento com Deus. É a jornada do conhecido para o desconhecido, da segurança para insegurança. É a entrada na noite escura da alma. Esse estágio é chamado de Aranyakas
  4. Realização da Identidade com a Verdade – O quarto estágio é o estágio final, no qual a humanidade se descobre que o seu verdadeiro ser está em Deus. O verdadeiro Eu e Deus são um e o mesmo. É a realidade com o o amante e o Amado são um. A busca termina. Esse estágio é chamado de Upanishads.

Pode-se relacionar o Antigo Testamento aos dois primeiros estágios. Os estágios onde a poesias, leis e rituais se fazem mais fortes. Entretanto, é notável a revelação progressiva na leitura do Antigo Testamento. Um Deus que não quer que apenas os ritos sejam praticados, mas que o amor esteja envolto na prática. Yahweh através do profeta Oséias diz: “Porque eu quero a misericórdia, e não o sacrifício; e o conhecimento de Deus, mais do que os holocaustos.”  Em Isaías capítulo 1 Yahweh demonstra sua indignação pelas práticas religiosas feitas sem amor, sem a verdadeira motivação. Ritos completamente vazios e sujos pela falsa religiosidade, o que era para ser um caminho para se achegar até Deus se torna o fim em si. Esquecem da Bhakti Yoga (o amor à Deus) e da Karma Yoga (o serviço ao próximo). E Deus quer um envolvimento mais profundo com a sua criação e clama: “Dêem ouvidos e venham a mim; ouçam-me, para que sua alma viva” (Isaías 55:3).

No livro do profeta Ezequiel Yahweh faz uma promessa: “Darei a vocês um coração novo e porei um espírito novo em vocês; tirarei de vocês o coração de pedra e lhes darei um coração de carne. Porei o meu Espírito em vocês.” (Ez 36:26,27). Aqui nota-se o que haveria de vir: um coração novo e o Espírito de Deus em nós. A verdadeira unidade com o Criador. E é para essa unidade que Jesus veio ser o caminho, o caminho da verdadeira devoção e união com o Pai. Pois todas essas leis e regras de não coma, não manuseie, não faça, como o apóstolo Paulo disse : “são sombras do que haveria de vir; a realidade, porém, encontra-se em Cristo.” (Colossenses 2:17).

No Novo Testamento é mais notável o terceiro e quarto estágio da jornada espiritual. Logo no início dos evangelhos vemos a figura de João Batista, aquele que já tinha o Espírito de Deus desde o ventre de sua mãe (Lc 1:15), que cumpre a profecia de Isaías (Mc 1:2-3), que vestia roupas “feita de pelos de camelo, e cinto de couro na cintura; comia gafanhotos e mel silvestre”. (Mt 3,4), fazia jejuns e não bebia vinho (Mt 11:18), vivia no deserto da Judéia (Mt 3,1-3) e pregava o batismo  do arrependimento para que todos se voltassem para Deus (Mc 1:4) e já anunciava àquele que viria batizar com o Espírito, Jesus (Jo 1,29-34). João é aquele que se retirou para o deserto para uma vida de experiências profundas com Deus. Um homem fora do comum, alguém que se dispôs a renunciar tudo para poder contemplar mais a face de Deus, aquele que abandonou o conforto e segurança da religião para poder vivenciar a presença do Eterno. João Batista está no terceiro estágio da jornada espiritual, mas anuncia àquele que apresentará e tornará possível o quarto estágio.

A vinda de Jesus representa uma mudança nos paradigmas religiosos. A sua vida é sua própria mensagem. Jesus veio quebrar os muros de inimizade entre a humanidade e Deus e a humanidade com ela mesma. E tudo isso através de um único caminho, o caminho do Amor. É nítido encontrar a filosofia da Bhakti Yoga nos ensinamentos de Cristo, pois ele mesmo é o caminho para a realização da Bhakti Yoga e é através dele que se pode ser uno com Brahman.

Como já foi dito, a Bhakti Yoga significa total redenção à Deus. E é isso que Jesus diz incansavelmente através dos evangelistas. Certo dia um perito na Lei quis colocar Jesus à prova e perguntou: “Mestre, qual é o maior mandamento da Lei? “Respondeu Jesus: ” ‘Ame o Senhor, o seu Deus de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todo o seu entendimento’. Este é o primeiro e maior mandamento. E o segundo é semelhante a ele: ‘Ame o seu próximo como a si mesmo’. Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas”. (Mt 22:36-40). São os dois processos da Bhakti Yoga, pois uma devoção verdadeira à Deus leva à ação ao próximo.

Gandhi, que utilizou o Bhagavad-Gita como seu guia de vida, disse: “Meu único objetivo na vida é o de alcançar moksha, a libertação, ou seja, conhecer a Deus. Se eu acreditasse que poderia fazer isso retirando-me para uma caverna no Himalaia, faria isso imediatamente, mas acredito que posso encontrar Deus em meu conterrâneo, sofredor, por isso, dedico minha vida a Deus em meus companheiros”

O amor de Deus é horizontal e vertical. Em I Coríntios 8:3 é dito que aquele que ama a Deus é conhecido por Ele. E Jesus disse: “Amem-se uns aos outros. Como eu os amei, vocês devem amar-se uns aos outros. Com isso todos saberão que vocês são meus discípulos, se vocês se amarem uns aos outros”. (Jo 13:34,35).  Esse é o verdadeiro estágio da vida espiritual: o amor.

É só o amor que gera a não-dualidade. É o se perder no Amado. É o gelo colocado na torrente, embora em estados físicos diferentes, se tornam um. “Deus é amor; e quem está em amor está em Deus, e Deus nele.” (1 Jo 4:16). Jesus veio unificar a humanidade com o Eterno. Quando compreendemos a ligação com Deus e que ele é nossa única Realidade podemos dizer: Eu sou Deus. Não no sentido do nosso ser irreal e material, mas o Atman, a fundação da realidade, como diria o Brother Martin. Jesus compreendeu isso perfeitamente, por isso disse: “Eu e o Pai somos Um.”. E nessa verdadeira compreensão do seu Eu ele cumpre seu propósito aqui nessa terra, de ser. “Talvez dizer “eu sou Brahman” possa parecer arrogância espiritual, mas requer um grande grau de humildade no qual o ego é renunciado e apenas Brahman resta.  Dizer “eu sou Deus” não significa que a humanidade se tornou Deus, mas é afirmar que Deus é a única Realidade”  O apóstolo Paulo expressou isso em plenitude na sua carta aos Gálatas: “Assim, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim.” Gálatas 2:20.

Padre Bede Griffiths que diz: “Quando alcançamos o nível do espírito descobrimos que é o próprio Senhor que está em nós, e age através de nós, e de que precisamos nos unir ao Senhor, de modo a cumprir seu propósito no mundo”. Jesus compreendeu isso de uma maneira muito clara e transmitiu à toda humanidade. Seu testemunho de vida, morte e ressurreição mostram o caminho a ser percorrido. A verdade não é seguir e acreditar em certos dogmas e credos, mas é a experiência do amor. E podemos encontrar essa verdade nas diversas tradições. Os ensinamentos da Bhakti Yoga transcendem tempo e tradições religiosas, é o próprio ato de redenção e restauração do ser através da devoção.

Que a tranquilidade desça sobre os meus membros. A minha fala, o meu alento, os meus olhos, os meus ouvidos; Que todos os meus sentidos se tomem claros e fortes. Que Brahman se mostre a mim. Que eu jamais negue Brahman, nem Brahman a mim. Eu com ele e ele comigo – possamos permanecer sempre juntos. Que seja revelada a mim, Que sou devotado a Brahman, A sagrada verdade dos Upanishads. OM. .. shanti – shanti- shanti!

Bibliografia

GRIFFITHS, Bede. Rio de Compaixão: Um comentário cristão ao Bhagavad-Gita. São Paulo: É Realizações, 2001.

DHAVAMONY, M. Love of God according to Saiva Siddanta: a study in the mysticism and theology of Savism. Oxford: Clarendon Press, 1971.

GANDHI, Mahatma. Bhagavad-Gita segundo Gandhi: tradução Norberto de Paula Lima – São Paulo: Ícone, 2011, Ed.3.

Martin, John. Duality and Non-duality in the Upanishadic and the Biblical Traditions. 2003

Escritos Sagrados

Bíblia Sagrada

Upanishads

Bhagavad-Gita

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3 pensamentos sobre “Bhakti Yoga na Bíblia e no Bhagavad-Gita

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